5 de abril de 2010

Casa


I'd come to you, where you are
It's too hard to be apart
The East's not so far away

24 de março de 2010

#instantâneos

Escola Spungen de atendimento ao público, apresenta:

Loja xpto, mil novecentos e noventa e calça santropeito. Menina atendente e figurão. Segue:
Atendente: - O total é R$ 0,50.
Figurão: Vou passar no crédito.
Atendente: (fita demoradamente o figurão tentando desvendar o sentido da vida de algumas pessoas. Suspira profundamente.) Sua carteira de identidade, por favor.
Figurão: Não precisa, taí o cartão. (olhar de desprezo)
Atendente: Precisa sim.
Figurão: Taí meu nome, garota.
Atendente: Certo, mas você trouxe a identidade ou devo cancelar a compra?
Figurão fica melancólico por não ter sido reconhecido e revolve seus panos até achar o documento.
-Taí, mais alguma coisa? Certidão de nascimento?
-Desnecessário, senhor. (olhar de tédio)- vai até a máquina e volta com dois comprovantes. Depois de anotar o número da identidade do sujeito, pede: -Agora assine essa via aqui.
-Não precisa assinar...
Atendente interrompendo o figurão: -Vamos manter os procedimentos? Assine por favor, para facilitar o meu trabalho.- Figurão resmunga, pega a caneta do bolso e faz um risco.- Então, senhor, desculpe, não fui clara, assine tal qual está na sua identidade.
Figurão bufa, range os dentes e cospe: -Isso é uma absurdo, eu vou falar com a dona da loja. É minha amiga.
Atendente:- Então, o senhor parece ser ocupado, eu pouparia o tempo, porque ela vai dizer que que a funcionária dela é cuidadosa-pisca longamente.- Tenho certeza que o senhor não vai querer perder seu tempo falando sobre a burocracia de loja com sua amiga, o senhor não acha?
Figurão assina e pede: Me dá teu nome, garota.
Atendente sorri placidamente: Nancy Spungen, senhor, tenha um boa tarde.

Já nasceu póstuma. Até porque Nancy Spungen estava morta. A atendente está viva e ganhou rescisão, que lhe permitiu viagem a Barbados.


Não está lá.

Felicidade não toma assento. Ela nunca esteve lá. Pelo menos não a minha. E tal como a dele, antes que ache as palavras, ela já ganhou outra ambição. Aquilo que eu não posso contar ou o segredo mais profundo. Enquanto acham que encontram, eu estou perdida nela:


AVISO

Amantes da caça
e aprendizes em busca de presa:
Não apontem seus rifles
para a minha felicidade,
que ela não compensa
o preço da bala
(seria um desperdício).
O que lhes parece
tão ágil e belo
quanto a corça,
e corre,
por toda parte,
como a perdiz,
não é felicidade.
Creiam:
minha felicidade
em nada se assemelha à felicidade.

(Taha Muhammad Ali. Trad: Celina Portocarrero)

22 de março de 2010

Lazybones

Amanhã eu resolvo.
A família que dê conta disso.
Um dia isso se resolve.
Alguém vai achar a solução.
É melhor eu ficar quieto.
Decretado que tudo só pode acontecer depois de amanhã...
Então, olha, fica um abraço.


"Lazybones, sleeping in the sun
How you 'spect to get your day's work done?
Never get your day's work done
Sleeping in the new day's sun

Lazybones, sleepin in the shade
How you 'spect to get your cornmeal made?
You'll never get your cornmeal made
Just sleepin in the evenin shade

Wedding day

No lugar mais quente do mundo, provavelmente às margens da foz dos rios Aqueronte, o Styx e Flegetonte aconteceu uma cerimônia de casamento em que fui fazer um assistência de fotos, e claro, me divertir, pois deus assim quis.
Nos primeiros minutos em que eu e meu amigo fazíamos os testes de luz, ângulo, etc, minha roupa já estava enxovalhada. A Maquiagem já tinha dado de ombros dizendo que lamentava. Os cerimonialistas não cansavam de pedir "um passinho atrás", e tinha um outro colega fotógrafo-who? que fazia os brindes e já nos odiava desde a infância dele. Como não conseguimos, apesar de muito debate, entender a razão do ódio e rejeição, enviamos o caso ao twilight zone, setor vidas passadas, e fomos trabalhar.
Em algum momento entre a entrada da noiva e o "sim", se fez necessário acrescentar um prefixo ao meu exercício: psychofotógrafa assistente tentava manter as pessoas quietas para poder captar um pouco de luz no ambiente, fazer pessoas mais bonitas sem utilizar "técnica souza" de fotos. Psychofotógrafa assistente falhou miseravelmente e dava sinais visíveis de frustração e impaciência, mas torcia intimamente para que todos confundissem o vinco na testa com excesso de profissionalismo ou com gênio criativo em ação empunhando a espada justiceira e o olho tandera, exercitando visão além do alcance .
Aí veio o momento das Lomos.
Fotógrafo e Psychofotógrafa assistente lindamente imaginaram uma página emocionante com a daminha de cachinhos negros, amiguinha de dois anos loira trajada com algo similar a um kilt e um garotinho que parecia um anjo[NOT]...então foi meia hora seguindo a gangue infantil na penumbra, até que comecei a sentir sérias dores no meu braço esquerdo, enjôos, e torci para haver alguém ali que entendesse de primeiros socorros a vítimas de infarto. Não há descanso para os ternos de coração, fato. Rapidamente migrei para a mesa e me concentrei no lindo cacho de bananas verdes e nas cuias de açaí, que tinham um estiloso reflexo de luz. Ambos silenciosos, quietos; entendi perfeitamente porque Cézanne e Van Gogh dedicaram alguns quadros à natureza morta.
De coração mais calmo, fui ter com a assistente para assuntos cartão-computador e quando fui tirar o cartão câmera, ele escorrega da minha mão, ficando preso na frestra entre as tábuas do piso do deck. Sim, eu disse deck. Quando me abaixei para pegar, um brilho das águas que só acontece nesses momentos, quase cegou meus olhos - 560 fotos, quase, eu disse quase, foram cozidas no Flegetonte.- Psychofotógrafa assistente e o fotógrafo continuam amigos até hoje, mas evitam a menção do episódio.
Em busca de um copo de água gelada, observei, para nota futura sobre costumes e ritos do grupo social, que a despeito da temperatura média de 30º, costuma-se tomar licor de amarula, brandy ou frangelico como aperitivo ou digestivo. E para os abstêmios, café...imaginei imediatamente quantos inimigos da família constavam da lista de casamento. Porque ficou a dica.
À medida que a noite avançava e o calor não dava trégua, as roupas de homens e mulheres ganhavam outra tonalidade. De modo que as cores mais fortes se abrandaram e os cinzas, beges, nudes, ficaram escuros. Velório dançante. Não é necessário dizer que a penumbra local fez um bem para as gentes do recinto.
O momento de maior constrangimento, ou não, foi quando íamos fazer o leão da montanha e sair loucamente pela esquerda, com nossas cabeças girando para a direita, e por mera formalidade fomos nos despedir da genitora da noiva. Em um momento de "não entendi os sinais de partida", ela sacode as mãos e nos chama para mais fotos. Houve uma desconsolada troca de olhares entre psychofotógrafa e fotógrafo. E lá fomos nós porque deus assim quis.
Então que a mãe da noiva, é... bem, uma frequentadora de bingo; fuma Dunhill do vermelho e bebe whisky-não-importa-a-procedência, fala muitas palavras de baixo calão, dá cotovelada quando conversa e tem aquela gargalhada pulmonar. E Dona Dercy precisava de fotos, de muitas fotos com outras amigas de similar procedência. Psychofotógrafa assistente ganhou novo gás porque simpatiza com os tipos que frequentam bingo, e queria muito uma avó assim para chamar de sua, e começou a rir de maneira reservada. Fotógrafo não acompanhou a descontração e já estava com canto da boca super repuxado nível derrame. Temi, e não sei em que momento conseguimos sair, tanto que quando chegamos no estacionamento olhávamos para trás sem crer que tínhamos conseguido de verdade. Certo que tivemos o impulso de correr pelo estacionamento até nos sentirmos na segurança do nosso climatizado fotomóvel a 100 km/h. Praise the lord.
Ah sim, tocou isso enquanto saíamos. J-U-R-O.

19 de março de 2010

Paper Moon

Say, it's only a paper moon
Sailing over a carboard sea
But it wouldn't be make-believe
If you believed in me

Em 1933. Distraída por aí.

3 de dezembro de 2009

I've got the spirit, but lose the feeling

Eu parei para apagar uma série de coisas no blog por que estavam com prazo de validade vencido, e como eu não encaro o blog como alguma coisa tipo "deixa aí, faz parte da minha história, para que mudar?", ia fazer 'aquela edição' (todos os blogs editam)...but i've got the spirit.

Mas vou apagar alguns posts que realmente são rebeldes à minha pessoa e não concordam com o que sinto e/ou penso hoje. Nada de motim por aqui, nem mesmo do meu passado. Ordem porra.

11 de outubro de 2009

Ilusión de Transparencia- SUBTE


Não deslumbro, não sei por quê. Mas para mim não é um problema, sigo de maneira calma...Um dia, aliás, me deslumbrei. Estava no metrô e pensando no que acontecia comigo ali, distante de casa, me devendo uma satisfação, e de telefone na mão, decidia uma pequena contenda dali a pouco para todo o sempre (aquele que me carrega ou aquele que me derruba?), e perdi várias vezes o trem. Fiquei sentada, calculo, por umas 2 horas, sem vontade de voltar para o meu abrigo, vendo aquelas milhares de pessoas na plataforma, saindo de seus empregos infernais, escravizados pela rotina que vendem na revista, na TV, nos blogs: filhos, trabalho, qualquer coisa que possa (impossível)te isolar disso, qualquer outra coisa que te faça acessar a tal da estabilidade enlatada, ou pelo menos, a certeza de alguma coisa; imaginei muitas histórias, mas os via, principalmente, contentes por terem terminado o dia...eu jamais poderia ter esse tipo de satisfação. E isso me deslumbrou sim. Resolvida a contenda.

4 de outubro de 2009

Eu saí por horas da tua casa.Te deixei mudo. Saí com a pressa do medo, pra ME avisar que eu amo. Amo de novo e de novo.

7 de setembro de 2009

sonegação

em seu lugar.

pinguim em cima da geladeira

sereno, cumprindo a rotina

macarrão no domingo

plantão às segundas

sexo na quinta-feira

cerveja na sexta-feira

uma hora a mais de sono no sábado

algumas certezas.

Endereços escritos em agendas.

Teclas de emergência.

GPS de assuntos. GPS de pessoas e assuntos.

GPS de lembranças. Datas de validade.

Respostas embaladas a vácuo.

Uma folga.

Esquecimento compulsório.

Título aqui_______________.

20 de maio de 2009

really?

26 de março de 2009

15 step

How come I end up where I started?
How come I end up where I went wrong
“São quinze passos para começar, são quinze passos apenas, para que chegue até ti a ventania que te carregará para longe”, tinha 11 anos quando escutei meu avô me sussurrar isso. Estava deitado em uma rede quando vi que algo estava errado, vi que sentia dores, mas ele me pediu para não chamar ninguém e me disse aquilo. Logo depois foi a correria, a mãe e tias, gritando “ataque caardíaco” e contrastando com a cena os olhos azuis e macios do meu avô me olhando com um um sorriso leve. Ele se abandonava. Era o que ele estava me dizendo sem uma palavra. Meu avô era um comerciante, não um escritor.
Durante algumas semanas quiseram me imputar uma culpa por não ter chamado ninguém quando percebi que algo não ia bem. Mas carreguei de silêncio as minhas reações aos murmúrios feitos atrás das portas, aos berros, e mesmo com ódio aberto. Comecei a carregar comigo uma marcha de desabrigados, um colo sujo, feito de emoções torpes ou adestradas, de uma dureza sem par.
Satisfazia o protocolo familiar do esquecimento da morte, o luto, quando me sobreveio mais uma morte, e dessa não falo, por que nela também não conheci culpa, mas de novo fui testemunha.
Apesar de acontecimentos adversos, era uma criança normal que pensava demais na morte, sem querer morrer, e reinterpreteva cem vezes o que meu avô disse enquanto morria, e não convivia com nada que pudesse me envolver realmente.
Eu crescia, e comecei, à medida que esquecia o que meu avô havia dito, a tomar partido, eu já conseguia ter meu pai e minha mãe, eu tinha irmãos, e frequentadores. Eu sabia o que seria quando tinha dezesseis, por deus, eu já estava morrendo. 
E um dia, nove anos depois, assim como qualquer outro dia, tomei o café, de cenho franzido, sem mencionar nada do que me alimentava ou pensava, e escutando brevemente a voz de meu pai repetindo que havia mudado, pude ter tempo de lamentar minha mudez adulta, que não podia se desculpar sem que algo por dentro se decepasse. Pensei: foram os 15 passos.
Eles de nada sabiam, não desconfiavam, mas se soubessem, se ali falasse, apenas espicaçaria a vontade deles de me demover de tudo. Eu queria deixar a minha mãe lavando a louça, meu pai mexendo o relógio parado há dias, sentia que se dali saísse e voltasse a qualquer hora, encontraria a mesma cena, como se ali fosse um museu de cêra. 
Saí pela porta, distraída, fui até a rodoviária, paguei uma passagem, a mais cara, para qualquer lugar que o vendedor escolheu enquanto me olhava como se fosse louca, desci em uma grande cidade e comecei a trabalhar em um bar. Eu não estava morrendo, como pensava aos dezesseis, estava procurando manter meus olhos fixos no brilho.
O brilho para mim era ter descoberto que meu avô não tinha me dado um aviso ou uma sentença, ele apenas sabia que um dia o que me levaria embora seria um sopetão, uma ventania de promessas -que sempre nos acometem- quando percebesse que me enganara quanto a estar morrendo, quando de mim saísse o cheiro de cêra, quando me demitisse do cenário da família. Em quinze passos refaço a vida inteira... e não sabia se teria mais 15. Havia me apaixonado sem saber se era correspondida, e a vida era uma amante vadia, mas me espreitava a todo momento.
Começava uma vida de trabalho, e o trabalho era uma rotina necessária, havia períodos de folga curtas, e quando arranjei mais um emprego à noite, restavam idas solitárias ao cinema e às praias próximas. Andava como se todos estivessem atrás de mim, em alguns momentos, via setas vermelhas saindo de alguns olhos apontando para diversos lugares, mas em nenhum deles eu estava. Eu não permanecia na gerência de afetos pendentes ou mesmo permanentes. Eram apenas quinze passos para refazer a vida inteira... Os anos iam passando e eu já havia contado sessenta.

6 de março de 2009

sua peruca melhora o meu olhar

ARTE DA FUGA (FALSO ERUDITISMO DA VIDA)

Você trabalha todos os dias. Todos os dias você se levanta e cumpre uma rotina espartana. Acorda cedo e dorme tarde, roubando alguns minutos de lazer dos dias da semana. Você assiste uns três filmes por noite por que não consegue dormir. Havia um tempo em que isso tudo seria até mesmo impronunciável, mas você está longe de casa, você não conhece ninguém, você não tem tempo para os amigos. Você lembra com saudade, mas sem remorso, do que deixou para trás, você escreve linhas tortas com recados pequenos para seus avós, primos e irmãos, dá um telefonema mensal para os pais. Aos finais de semana você caminha sozinha, entra em algum bar toma uma cerveja, duas, três, joga uma partida de sinuca. Você tem conhecidos. Em algum lugar de algum armário na sua cidade, você escondeu algo. Você não lembra mais, esparsos são os sorrisos que lhe vem a memória, o contato já escapou no esquecimento, mas sente faltar algo. Você caminha como se tivesse esquecido a chave, e você confere o bolso: lá está ela. Nada falta.

10 de fevereiro de 2009

My Iron Lung (Heart)

The head shrinkers
They want everything
My uncle Bill
My
Belisha beacon
The head shrinkers
They want everything
My uncle Bill

My Belisha beacon

Você amanhece, os olhos atravessam as grades que protegem a janela, ou você, ou a casa, do mundo inteiro. No mesmo dia mais cedo, pôde caminhar até o que não podia, fora necessário parar por conta da fome e da tontura, para simplesmente poder olhar a grade da janela mais uma vez, nesse momento. Tão simples assim.

Todos os risos largados na mesa de um bar com o nome obliterável, assim como quase obliterados foram todos os mínimos fatos do mesmo dia (mais cedo). E você lembra apenas aquele que quase mudara o destino das águas: por acaso o seu psiquiatra também de férias na mesma cidade que você resolvera dar um alô. Quatrocentos bares-cafés e fora ali através dem uma janela embaçada que ele vira a sua silhueta e resolvera que devia cumprir obrigações sociais para com você.

Nesse momento, disseram adeus: rivotril, citalopram, benzodiazepínicos, estabilizantes… Quando a medicina entrava no terreno do recreio ela abandonava também o controle de qualquer “cura”. Ele ali parado, bonachão e simpático, enquanto aquela inocente caneca  de café nas mãos, fervendo e deixando o nós dos dedos brancos de tanto apertá-la, não fazia mais sentido  e você não sabia se devia devolver os cumprimentos do seu médico ou fechar a boca…você preferiu dar mais um gole no café e chamar o garçon e iniciar mais uma jornada sem fim através dos graus etílicos mais absurdos: gim, vodka, rum…tira-gosto com Sauza, sal e limão, e para hidratar, cerveja. Daí, antes de toda essa festa-monstro, convidara o doutorzinho para um trago, algo assim, que lhe faria se sentir destituído do cargo, da vida, da profissão, da esposa, da qualidade de vida, carreira de sucesso, gazebo, etc; convidara com calma e saboreando as palavras com a sabedoria adquirida nos anos de convivência com o  álcool: uma bebida pesada, doutor? Um gim puro? odeio gin-fizz, doutor, ele é o que Phill collins é para o pop, doutor: fraco, doce, comedido, medroso…doutor?

Nessa ordem, como fizera há anos atrás, anos sem que o seu médico tivesse a descabida intenção de misturar o terreno dos afetos, resultando daí a labiríntica crise de volta à bebida e às outras coisas que lhe auxiliriam continuar no dia seguinte com a jornada, uma dormida em um canto qualquer, em um quarto qualquer, os desconhecidos, as gargalhadas gratuitas, a carnéia…levantar-se (stand up!) era a duração da rotação da terra sobre si mesma, o tremor lhe fazia se arrastar para aquilo que deixasse tudo o mais próximo possível do “In Its right place”. Antes de enfrentar a total compreensão da família em adiantar os acontecidos da noite ou o dia passados longe, o que fizera…aquilo soara em ritmo, martelando, tornando a sua cabeça o último lugar habitável para qualquer pensamento coerente… Uma orquestração entre atonia e distonia,  palavras  e sons sincopados, suficientes para prostar um rinoceronte em fúria: toda a minha improvisação atonal.

Hes been hanging around for days.
Comes like a comet,
Suckered you but not your friends.
One day hell get to you,
Teach you how to be a holy cow.

Dont get my sympathy hanging out the 15th floor.
Youve changed the locks 3 times,
He still comes reeling through the door.
And soon hell get to you,
Teach you how to get to purest hell.

You do it to yourself you do
And thats what really hurts is
You do it to yourself just you,
You and no-one else
You do it to yourself.”

my iron lung

29 de janeiro de 2009

cocaine song...

Todos na mesa à espera, as ruas vazias a comida está posta. É 1976 e eu não tinha nascido. Na rua algumas crianças teimosas ainda brincam. É silêncio, o musgo da parede da casa do meu avô cresce, o quintal é farto de arbustos e flores. Um cenário retrô e idílico, só para ele, para os filhos e para os netos.

Ele sentava à cabeceira da mesa como os grandes patriarcas. Não sei se delirava ser Napoleão, Dom João..não sabia ele, com certeza, que com ele ia também o patriarcado. Os agregados, dependentes e aderentes em fuga adoidada pelos becos, como se fugissem de dívida antiga cobrada à porta, sumiram assim que ele morreu. A avó que sobreviveu a ele, perdida ainda nas pequenas coisas da casa, pulso nenhum para patrimônio, economia, ou números a não ser que a conta sempre aberta da taberna valesse, foi vendo as coisas serem vendidas. Só não viveu suficiente para ver a casa do patriarca cair; se ainda fosse viva, ali era o golpe de misericórdia. A despeito da morte do meu avô, aqueles, que por ousadia ou por falta de recurso, nasceram, talvez tenham superado a expectativa do velho se ele ainda estivesse aí para ver. Não sei se para bem ou para mal, os sobreviventes todos se encaminharam, mas a família mingua. Ainda bem? Uma família de um século, cansada. Ainda em tempos outros, com os valores adormecidos no sono de como mundo deveria ser (não como ele é)… quando nasci o que podia querer? Minha maior satisfação talvez sela cantada assim: “I’m so glad to get my own, so glad that i can see, my life is a natural high, The man can’t put no thing on me“…nem ideologias, amigos, nem afetos. Quem manda sou eu. Os netos nascem, ele morre. Essa é a lógica. Essa foi a maior herança que o velho deixou. Que as coisas tenham o dom de suceder, sempre.

27 de janeiro de 2009

Foristas do mundo e seus hábitos exóticos.

Enquanto o casal multipoliétnico Jolie-Pitt não chega, as inscrições são feitas, e os acampamentos são montados. Ainda é possível acompanhar sem o riso contido a variação da cena entre woodstock ou campo de batalha de alguma guerrilha motivada por alguma ideologia estranha. O fato é que baixando um pouco as expectativas do fórum, o que se pode ver é um mar de estrageiros vindo de todas as partes, sikhs, evangélicos proativos, aborígenes, ciclistas do tour de France, doutores em economia, em história da África, feministas com buço, hippies conservados em galões de formol, surfistas, skatistas, normalistas, freiras da pastoral, índios, clones do Che Guevara, clones do Stálin, do Lula e até da Condoleeza Rice; estudantes, donas de casa entediadas, deprimidos, ex-viciados, viciados, suicidas,padres da pastoral, padres a favor do casamento homossexual (tá a gente já sabe que ele aprovam a idéia que os padres possam contrair o matrimônio), lulus, ativistas do  (ca) PETA, vendedores de churros, policiais não uniformizados, naturalistas, gregos, troianos, baianos, GLBTS, anarquistas, anistiados, golpistas, tradutores daquele dialeto da logínqua tribo que habita Papua Nova-Guiné, os cotitas, fofoqueiros, ativistas pelos direitos dos afrodescendentes, ex-assaltantes de banco,o seu cabeleireiro,___________(complete aqui).


Hábitos observados:
Ao chegar ao acampamento é claro que você precisa se adaptar:
-Os banheiros não funcionam.
-Os chuveiros não funcionam.
-As pias não funcionam.
-Você pode usar o reservatório dos patos e gansos para sua higiene pessoal (mas se aconselha a não beber dessa água).
-Se você por acaso conseguir usar os banheiros seja qual for a necessidade, parabéns, no entanto, saiba apreciar seus momentos de SORTE; eles não acontecerão com frequência na sua vida.
Conselho: relaxe, você está entre pessoas que compreenderão a falta de higiene a partir de outro prisma, além do mais considerando que essas pessoas vêem tudo a partir de “outro prisma”, convença-se de que gente limpa não é muito atraente. Esqueça o desodorante, acorde com os pássaros, cuspa no chão, durma cagado…dormir pelado “podche”? Podche também, risque da sua lista palavras como depilação das axilas, buço e virilha.O dresscode é simples, chinelos de couro (havaina nunca, elas são vendidas nos aeroportos como produtos de exportação nacional, símbolos de modismo, favor não contribuir para qualquer mercado internacional de produtos estritamente nacionais.) para todos;  para as meninas: vestidos, saias, bustiês, batas todos feitos de renda tecida pelas velhas rendeiras do interior do Ceará; para os meninos: bermuda. Sem cinto.
Bebidas baratas são encontradas sempre perto de você; mas você só saberá que são baratas no outro dia.
Perfume do verão:… (patchouli, somente para os diretores de ONG’S)
Acessórios: vá ao museu ou a bosque local, caçe algum bicho com penas exóticas e tire apenas as penas do rabo, deixe as outras para o bichinho voar. Utilize as técnicas aprendidas naqueles 14 cursos de artesanato  e bijoux que você fez. Enfeite-se; mulheres e homens com acessórios vistosos são sempre um deleite para o olhos. Lembre-se ser natural é o newblack.

22 de janeiro de 2009

A natureza das coisas é artifício.

Você descansa à tarde. Descansa na varanda de sua casa, no sofá, tirando um cochilo, na hora do trabalho, abaixando a cabeça entre os braços na frente do computador. Descansa também quando alguém fala demais e não diz nada, por que você sabe que não precisa participar do falatório, trata-se de um monólogo em que você só precisa prestar atenção ou simplesmente dormir. Você escolhe a segunda opção por que é sábio e compreende que nada que seja importante, pode demorar mais de meia hora para ser dito. A tautologia é feita para o deleite da sua intimidade, não para que os outros a apreciem.

Agora você pode encostar o queixo na mão e balançar os pés; você pode se lembrar da ética das relações e você também pode lembrar que isso é uma mentira. Você pode se acostumar com o zunido de um ar condicionado, tanto quanto se acostuma com a presença de alguém ou da insistência em parecer importante enquanto fala.Você simplesmente não liga, mas abana a cabeça parecendo acompanhar. Você parece acompanhar por que a varanda à tarde existe e precisa existir para que se descanse, para que se tire um cochilo, para pensar em nada e observar os insetos.

enough is enough.

Você corre maratonas. Maratonas são coisas estúpidas, você pode correr para ganhar, mas 90% corre por participação. Mas corre. Inicia a corrida, já se sabe o percurso, estima-se o tempo, como idiotas. Para não chegar a lugar algum, ou melhor, a lugar algum que surpreenda.
Tem os dias em que você sai correndo… você sabe que pelo volume de desespero, e de suor: você está em uma maratona, você só não sabe onde nem quando vai chegar.
Mas tem um dia em que você começa a dizer chega para aquilo que se repete e repete, como aquela maratona que você participa todos os anos e coloca o número na blusa. Todo ano. Em algum dia você vai acordar “not in the mood” e perceber que você encara a maratona à toa. E você simplesmente desiste. Apenas veja a penúltima cena do “Revolutinary Road”. Chega de mazela.
É melhor começar a viver.